Powell deixa o Fed em meio a pressão de Trump e disputa sobre independência do BC
O economista Jerome Powell deixou oficialmente nesta sexta-feira o comando do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, encerrando um dos períodos mais turbulentos da história recente da instituição.
A saída acontece após meses de forte pressão política do presidente Donald Trump, críticas públicas da Casa Branca às taxas de juros e uma disputa crescente sobre a independência do Fed.
Powell comandou o banco central americano desde 2018, quando foi indicado justamente por Trump durante o primeiro mandato presidencial. Depois, foi reconduzido ao cargo pelo então presidente Joe Biden.
Ao longo de oito anos no cargo, Powell enfrentou alguns dos momentos econômicos mais delicados das últimas décadas:
-a pandemia de Covid-19;
-a recessão de 2020;
-a explosão da inflação pós-pandemia;
-e a guerra política envolvendo juros e crescimento econômico.
Durante sua gestão, os Estados Unidos viveram a maior inflação em 40 anos. Em 2022, o índice anual chegou a 9,1%, pressionando o Fed a promover uma sequência agressiva de aumentos de juros.
Na época, Powell foi criticado por inicialmente classificar a inflação como “transitória”, avaliação que depois acabou abandonada pela própria instituição.
Mesmo assim, analistas apontam que ele conseguiu conduzir o chamado “soft landing” da economia americana — cenário em que a inflação desacelera sem provocar recessão profunda nem explosão do desemprego.
Mas o principal embate da reta final de sua gestão aconteceu com Donald Trump. O presidente americano passou os últimos meses pressionando publicamente o Fed por cortes mais rápidos nos juros e chegou a ameaçar retirar Powell do cargo antes do fim do mandato.
Além disso, o Departamento de Justiça abriu neste ano uma investigação envolvendo gastos em reformas do prédio histórico do Federal Reserve em Washington. Críticos afirmaram que a apuração era uma tentativa de pressionar Powell politicamente. O caso acabou arquivado meses depois por falta de evidências criminais.
A saída de Powell reacendeu nos Estados Unidos o debate sobre a independência do banco central americano. Economistas e ex-dirigentes do Fed alertaram que pressões políticas sobre decisões de juros podem afetar mercados, inflação e confiança internacional na economia americana.
Para substituir Powell, Trump indicou o ex-diretor do Fed Kevin Warsh, confirmado pelo Senado nesta semana por uma apertada votação de 54 votos a 45.
Warsh assume o comando da instituição em um cenário delicado:
-inflação americana ainda acima da meta;
-pressão política por corte de juros;
-tensões globais envolvendo China e Oriente Médio;
-e temor de desaceleração econômica nos Estados Unidos.
Mesmo deixando a presidência do Fed, Powell deve continuar integrando o conselho do banco central até 2028, numa tentativa de preservar influência interna e reforçar a autonomia da instituição diante da crescente pressão política em Washington.
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Eliseu Caetano
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